Páginas

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

DAS COISAS SEM NOME

Bem, você viu como fica minha bunda na calcinha branca, como ponho sal demais no estrogonofe e na vida, como preciso de uns doze minutos sozinha bebendo café contra o sol e como tenho pavor de sapo, de pão molhado e de namorar durante a copa do mundo. Já é uma intimidade que não tem nome.

Sei que a gente teve uma discussão de relacionamento, que não foi de relacionamento, mas se isso não é relacionamento, é outra coisa que não sei o nome. Sobre doce de abóbora. Pra mim, era moranga. Pra você, não existe doce de moranga. Pra mim, ba
sta pôr açúcar na moranga. Sei que eu não queria que nossa primeira briga fosse por causa do doce de abóbora, pra mim moranga, e você disse que não era uma briga. Então nossa primeira briga foi pra ver se isso era ou não uma briga. Coisas de casal, ou de duas pessoas ligadas por uma coisa grande órfã de nome.

Você arrisca, quase sem querer. "Tá muito quenta lá fora, amor?". Amor. Fica dezessete tempos calado. Depois, escorrega. "Você pegou o cartão,amor?". Amor de novo. E fica dezessete milênios em choque. Mais tarde, se distrai. "O quê cê acha, amor?". Amor ao cubo. E diz "merda!" em dezessete decibéis. Mas corrige, não é amor, é um sentimento recém-nascido, sem batismo, que ainda não tem nome.

Abraço e sinto seu calor nas têmporas e um breve suar da décima vértebra em diante. Da sala vem uma música que não sei o nome, daquela cantora nova e parceira do Nando Reis, que emplacou o hit na novela que não sei o nome. Fazemos uma coisa, quetem olho no olho demais pra ser sacanagem e reboladas demais pra ser uma coisa meiga. Fica assim, sem nome, mas juntando todos os pedaços soltos de nós dois dentro do quarto, numa coisa só, também sem nome.

Exausto, vencido e encanado de lutar por um nome pro que chamam de "amor", você dorme, acorda, toma banho e me conta um sonho ruim. Ninguém acredita em nós. Senta na cama feito índio e pensa em coisas bobas segurando os próprios pés pelo dedão. Poxa, você me viu acordar,lavar a louça, secar as costas com uma técnica inovadora e ter medo do escuro, do futuro e de maionese vencida.

Acho que já dá pra dizer mais algumas coisas. Já dá pra me chamar de "amor". Combinado. Provisoriamente, vamos apelidar isso de "amor", até que ele cresça, aprenda a falar e, quem sabe, cale nossas bocas. Até porque é vão ter medo de espantar o que já é tão iminente. Não adianta gritar amarrado nos trilhos, com o trem há dois metros, apitando que a mesma fome que tem de me comer na mesa da cozinha, tem de passear de mãos dadas comigo até o mar.

Às vezes, dois se encontram no meio de tanta gente chata, feia e sem graça, como duas canoinhas que se cruzam no meio do oceano Atlântico. E tudo isso é tão grande, tão precipitado, tão absurdo, que quase não é real, quase não é amor, quase fica sem nome.
 (Gabito Nunes)

1 comentários:

  1. "Fazemos uma coisa, quetem olho no olho demais pra ser sacanagem e reboladas demais pra ser uma coisa meiga"

    Muito Bom. Sucesso! x]

    ResponderExcluir